Joel Sternfeld e suas utopias

Fazia tempo que eu não ficava tão mexida com uma exposição. Na maioria das vezes acho tudo muito bonito, pego referências pra algum projeto  ­– que eu já vou ter esquecido depois de alguns drinks  algumas horas  – mas no final eu sei que nunca mais vou tirar do armário o caderninho onde eu anotei o nome do artista ou o nome da obra.  Pra ser mais exata, a última vez deve ter sido em 2009, na expo da Sam Taylor Wood, Crying Man. Mas quem não se emociona com esse bando de homem chorando?

Talvez tenha sido um perfect timing com o meu ciclo menstrual, mas depois que vi essa retrospectiva do Joel Sternfeld no C/O Berlin não consegui mais tirar suas imagens da minha cabeça.

A exposição fez total sentido com a época em que estamos vivendo. Os anos vão passando e as cidades vão ficando cada vez mais caóticas.  Nenhuma novidade por aqui. Não é a toa que neohippies estão por todas as partes (alô, Voodoohop!). Gypsies, se você for da moda. Quanto maior a pressão da sociedade, maior a força contrária de querer se livrar dela.

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Ruins of Drop City, Trinidad, Colorado, August 1995.

2012 foi um ótimo exemplo disso. O ano das pesquisas e vídeos virais nos incentivando a largar nossos empregos, trabalhar apenas com o que nos faz feliz, pedir demissão sem ter algo em vista, viajar sem data para voltar. Quem não quis ser nômade-homeless-cool como a Patti Smith e o Mapplethorpe que atire a primeira pedra. Eu ainda estou sonhando com o dia em que vou fazer parte dos interns da Marina Abramovic e ficar correndo pelada pelo seu quintal, podem me julgar. Tudo isso também está no ~imaginário coletivo~ dos berlinenses e a expo do Joel Sternfeld caiu como uma luva. Para eles e para mim, que tinha acabado de pedir demissão e estava em um momento de ódio e ódio com a cidade grande.

A que mais mexeu comigo foi a série Sweet Earth, que mostra comunidades utópicas nos Estados Unidos. A maioria das comunidades surgiu em meados de 1960-70, aquela linda década em que qualquer neohippie sonha em ter vivido (exilado em algum país da europa). Fotos de escombros e restos de lugares que um dia foram habitados se misturam com imagens de comunidades que juntam ecologia e arquitetura. Do lado de cada foto tinha um textinho explicando melhor a história de cada lugar.

Muita coisa deu errado, mas nem tudo é utopia. Comunidades como a Twelve Tribes, a Earthaven Ecovillage e a Arcosanti ainda existem, mas infelizmente dependem do dinheiro de turistas que visitam o local – e compram algumas coisinhas na lojinha de souvenir – pra sobreviver. Não julgo, mas é triste pensar que a idéia de ser livre e ao mesmo tempo não precisar fazer parte do terrível mundo capitalista ainda está longe de se concretizar.

Twelve Tribes Community, Basin Farm, Bellows Falls, Vermont, June 2005.

Twelve Tribes Community, Basin Farm, Bellows Falls, Vermont, June 2005.

Paolo Soleri at Arcosanti, Cordes Junction, Arizona, August 2000. 2005

Paolo Soleri at Arcosanti, Cordes Junction, Arizona, August 2000. 2005

An Earthship at Earthaven Ecovillage, Black Mountain, North Carolina, April 2005

An Earthship at Earthaven Ecovillage, Black Mountain, North Carolina, April 2005

Queen of the Prom, the Range Nightclub, Slab City, California, March 2005.

Queen of the Prom, the Range Nightclub, Slab City, California, March 2005.

Aí você dorme, acorda e se lembra que na vida real você ainda depende do dinheiro pra viver. Não pode simplesmente largar seu emprego sem nada em vista porque tem um aluguel pra pagar. Não vive em NY em 1968 e nem sempre pode trabalhar apenas com aquilo que te faz feliz. MAS por apenas $1550 você pode ser hippie e passar 5 semanas em Arcosanti, por exemplo. Com uns 5 mil reais por mês você pode largar tudo e viver uma vida de artista no Brooklyn. Viu? Não é tão utópico assim.

Como bem disse minha ídola Vivian Whiteman  “Consciência limpa custa caro, mas dá uma paz; não é mesmo?”

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