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Ballhaus Grünau: a visita ao casarão abandonado em Berlim

Publicado originalmente no Medium

 

Lanterna, check. Casaco preto com gorro, check. Canivete, check. Direções anotadas em um caderninho para caso a bateria do celular acabe, check. Tudo preparado para tentar conhecer a Ballhaus Grünau, uma casa de bailes construída em 1895 que não abre suas portas há mais de 20 anos.

Tênis no pé, capa de chuva na cintura e algumas frases em alemão decoradas para usar caso um policial pergunte porque estamos invadindo uma propriedade privada.

Na minha cabeça estávamos embarcando em uma aventura super perigosa e totalmente ilegal, mas visitar lugares abandonados — ou urban exploring, como os blogs gringos gostam de chamar — já é um tipo de turismo bem conhecido na Europa.

O mapa da nossa aventura ilegal tinha sido facilmente encontrado na internet, onde blogs como o Digital Cosmonaut e o Abandoned Berlin dedicam-se a encontrar lugares abandonados — de hospitais a estações de trem — e dar o caminho do ouro, com mapas detalhados de como chegar e entrar, a qualquer um que visite o site. O próprio Ciarán Fahey, editor do Abandoned Berlin, já lançou até um livro com fotos e informações de seus lugares preferidos.

Blogs como estes surgem a cada dia e são amados por turistas e odiados por muitos locais. Eles reclamam que a popularização desse tipo de turismo está acelerando a depredação de algumas construções históricas abandonadas e aumentando a fiscalização em outras. Muitos acreditam que esses blogs foram os responsáveis por transformar lugares antes abandonados, como Teufelsberg e o Spreepark, em atrações turísticas lucrativas, com direito a guias, tours e entrada paga. Ou seja, gourmetizou. Já os editores dos sites alegam que se não fosse a divulgação de suas descobertas estes mesmos lugares estariam trancados e continuariam esquecidos.

De qualquer forma, eles continuam ativos e ajudando viajantes como nós a fugir do centro da cidade e, quem sabe, conhecer mais de perto sua história.

Antes de sair de casa é sempre bom dar uma lida na caixa de comentários dos blogs. Eu sei que são poucas as ocasiões em que ler os comentários de um post podem te ajudar em alguma coisa, mas elas funcionam como um fórum para futuros “exploradores” ficarem sabendo da situação atual do lugar que pretendem visitar.

O último comentário que vimos, escrito há menos de um mês antes da nossa visita, alertava que a Ballhaus Grünau estava cheia de pichações de grupos neonazi e pedia que os visitantes não fossem sozinhos e tomassem cuidado. De repente os policias alemães eram o menor dos problemas.

O foda de ser mulher, gay e latino-americana é que a gente nunca sabe se tá correndo o risco ser espancada por xenofobia, homofobia ou só por ser mulher mesmo.

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Chegamos na estação Grünau no meio de uma tarde cinzenta, ameaçando chover. Péssimo clima para entrar embaixo de estruturas de madeira que podem ceder a qualquer momento, mas ótimo para evitar velhinhas alemãs que adoram achar um motivo para denunciar alguém que não está seguindo as leis (elas estão por todas as partes).

O casarão é bem fácil de ser visto da Regattastraße. Sua entrada, um estreito buraco em uma das grades que cerca o terreno, fica próxima a um píer e um pequeno parque e, apesar de ser uma boa ideia não deixar ninguém perceber que você está passando por um buraco na cerca, uma senhora e dois pescadores que estavam por ali não pareceram se importar muito ao ver um casal saindo de dentro do cercado logo que chegamos.

Mesmo com o tempo feio, nos poucos minutos que ficamos na frente da Ballhaus bebendo uma cerveja e decidindo se deveríamos entrar ou não (será que essa mulher sentada na praça é uma policial à paisana? será que esses caras tão pescando de verdade?) quatro pessoas passaram pela grade. Nenhum sinal de cabeças carecas, tatuagens suspeitas ou botas pretas com cadarços brancos, apenas jovens com uma câmera no pescoço e uma cerveja na mão. Gente como a gente.

Ao passar pelo buraco na cerca e cruzar o gramado alto que se formou ao redor da casa a primeira sensação é de desapontamento. As duas casas que ocupam o terreno estavam muito mais degradadas do que as fotos mostravam. Todas as janelas foram bloqueadas, as escadas de acesso quebradas e boa parte do teto já não existe mais. Mas acima de tudo fica a pergunta: porque abandonaram um lugar tão bonito, na beira do rio, com tudo para ser um ponto turístico?

Quem viveu a época de ouro da Ballhaus Grünau mal reconheceria.

A primeira casa a ser construída, a Ballhaus Riviera, possuía um grande salão de bailes e diversas salas menores, além de um bar e um restaurante. A pista de dança se estendia até a beira do rio, onde palmeiras e mesas brancas imitavam um ambiente tropical, atraindo os endinheirados que já estavam acostumados a passear de barco pela região.

Alguns anos depois a segunda casa, Gesellschaftshaus Grünau, foi construída ao lado. Ela possuía um salão ainda maior, uma casa de banho e alguns quartos para hospedagem.

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Nos anos 20 e começo da década de 30, Berlim era uma das principais capitais mundiais da cultura e da boemia. Foram os anos de Dietrich, Brecht, Walter Benjamin e da Bauhaus. E por incrível que pareça, a cultura de passar dias e noites na pista de dança não começou no Berghain. Todos os músicos queriam se apresentar na Ballhaus Riviera.

Por sorte o terreno não foi danificado durante a guerra. Perdeu um pouco do seu requinte mas continuou funcionando durante a DDR, sob supervisão do Estado. Já com a reunificação da Alemanha a Ballhaus não teve a mesma sorte. Foi passando de proprietário para proprietário, virou casa noturna, Biergarten, mas o preço de sua manutenção era tão alto que nada deu muito certo. Por ser uma área protegida, poucos investidores quiseram se arriscar a comprar o terreno sabendo que não teriam liberdade para construir o que quisessem por lá.

Há rumores de que a proprietária do terreno, uma empresária turca, está torcendo para que tudo desabe e ela finalmente possa mandar demolir o resto e construir um condomínio de casas de luxo.

Falta pouco.

Como todas as entradas principais foram cimentadas, o único jeito de entrar é pela janela (mais um motivo para não ir sozinho). Em alguns cômodos ainda é possível ver o teto e os acabamentos de gesso, restos do papel de parede original, das cortinas e até um piano (com algumas teclas funcionando) que não sabemos quando foi colocado ali, mas que estava perfeitamente posicionado na direção do único feixe de luz que entra pelo saguão principal. A isca de instagram perfeita.

Apesar do casarão principal ter três andares, subir suas escadas é tarefa para os mais corajosos. Não arriscamos. A estrutura, quase toda de madeira, está totalmente danificada e a impressão é que o teto vai cair em nossas cabeças a qualquer momento.

Como o tempo estava fechando e ficar lá dentro enquanto chove ia contra a nossa vontade de viver, a visita foi rápida.

Se quiser saber um pouco mais da história, ver o mapa de como chegar ou só ter certeza de que a casa ainda existe antes de visitá-la, todas as informações estão aqui.

Kollwitz não é só uma praça com feirinha aos domingos

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Em 2012, um amigo que já tinha ouvido minhas histórias de Berlim milhares de vezes me disse que estava rolando uma peça no MIS que eu iria adorar,a Kollwitzstraße 52.
Pra variar, fiquei enrolando para ir e acabei perdendo. Mas desde então psicopatizei com a tal Kollwitzstraße e, assim que cheguei em Berlim, fui correndo ver o que tinha de tão interessante por ali.

A Kollwitzplatz é uma pracinha na região de Prenzlauer Berg, aquele bairro que todo turista acha uma graça (eu, inclusive) mas que os jovens berlinenses adoram odiar. É uma das áreas mais antigas da cidade e a que menos sofreu com os bombardeios da 2a Guerra. Já foi um bairro de operários, artistas, fez parte da Alemanha Oriental e tem muita história pra contar. Claro que não demorou muito para todo mundo querer morar lá, os preços aumentarem, as baladas fecharam e toda aquela história de gentrificação que a gente vê diariamente nas grandes metrópoles. O bairro também é conhecido por ter a maior quantidade de carrinhos de bebê por metro quadrado da cidade.

O que poucos turistas sabem é que o nome Kollwitz é uma homenagem a uma das artistas gráficas (e ilustradora e escultura e mulher) mais incríveis da Alemanha, Käthe Kollwitz, que morou ali na esquina da Knaackstraße entre 1891 e 1943.

Apesar de ter nascido em uma família rica, Käthe se identificava com o Movimento Operário e usava sua arte (principalmente em xilogravuras) para retratar a situação social da Alemanha na época. Foi com a série A Revolta dos Tecelões (Werbezug)  que a artista começou a ganhar reconhecimento.

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Kollwitz continuou sua carreira registrando e participando de movimentos anti-guerra, lutando contra a pobreza e a fome, e simpatizando com o Comunismo. Além do ativismo, ela também ficou conhecida por suas declarações controversas: odiava grandes museus (te entendo, kat) e dizia que a bissexualidade era algo praticamente necessário se você quisesse ter uma produção artística. Isso no comecinho de 1900, tá? O diário que ela escreveu durante 45 anos já virou livro e deve ser incrível!

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Como esperado, suas atitudes revolucionárias não agradaram muito o regime Nazi. Seu marido foi proibido de trabalhar como médico e Käthe perdeu seu posto de professora na Universidade de Artes de Berlim. Em 1935 ela começou sua última série de gravuras, intitulada Morte (Tod).

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Se interessou? Esse site conta toda a história da artista. Mas se você não tá nem aí pra história ou para arte, na pracinha também rola aos finais de semana um Bio Markt e uma feirinha de antiguidades, daquelas com preços meio-absurdos-pega-turista, tipo Benedito Calixto.

A música eletrônica na Alemanha Oriental

A Red Bull Music Academy montou seu mini studio na Wrangelstraße, em Berlim, e fica lá até o dia 29 de setembro. Dá pra ouvir a transmissão e algumas entrevistas com os artistas — intensivo de alemão de graça! — aqui.

Aproveitando a deixa, eles pediram ao ex editor da Groove Magazine, Florian Sievers, que reencontrasse os artistas pioneiros da música eletrônica na DDR (alemanha oriental) para contar como era a produzir naquela época.

Julius Krebs e a Fernsehturm

Julius Krebs e a Fernsehturm

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Barulhinho de metrô

Uma das coisas que eu mais odeio fazer em São Paulo e mais amo fazer quando viajo é andar de metrô.

Apesar de sempre incentivar quem viaja a andar de ônibus – você consegue enxergar a cidade e pode descer no próximo ponto, caso encontre alguma coisa interessante – meu senso de direção é quase nulo, então andar de metrô acaba sendo mais fácil ( o que não significa que eu não me perca. muito. o tempo todo. todos os dias. )

Por isso uma das coisas que mais me marca nas cidades que visito é o barulhinho que eu ouço em cada estação. O famoso Mind the gap londrino, Stand clear of the closing doors em NY (seguido de uma sirene porque, obviamente, sempre tem alguém emperrando a porta. Ou achou que isso era exclusividade brasileira?), Einsteigen Bitte e a sirene medonha no U-bahn de Berlim ou o sotaque carioca que eu tanto amo nas estações do Rio de Janeiro.

Para a minha ou a nossa alegria, encontrei um site dedicado a esse transporte público tão amado e odiado. Lá você consegue ouvir e baixar os sons (alô dêjotas!) e as fontes (alô dizainers!) de metrôs do mundo inteiro. O site também mostra o mapa, fotos e alguns dados históricos de cada cidade.

Deu saudade.

Joel Sternfeld e suas utopias

Fazia tempo que eu não ficava tão mexida com uma exposição. Na maioria das vezes acho tudo muito bonito, pego referências pra algum projeto  ­– que eu já vou ter esquecido depois de alguns drinks  algumas horas  – mas no final eu sei que nunca mais vou tirar do armário o caderninho onde eu anotei o nome do artista ou o nome da obra.  Pra ser mais exata, a última vez deve ter sido em 2009, na expo da Sam Taylor Wood, Crying Man. Mas quem não se emociona com esse bando de homem chorando?

Talvez tenha sido um perfect timing com o meu ciclo menstrual, mas depois que vi essa retrospectiva do Joel Sternfeld no C/O Berlin não consegui mais tirar suas imagens da minha cabeça.

A exposição fez total sentido com a época em que estamos vivendo. Os anos vão passando e as cidades vão ficando cada vez mais caóticas.  Nenhuma novidade por aqui. Não é a toa que neohippies estão por todas as partes (alô, Voodoohop!). Gypsies, se você for da moda. Quanto maior a pressão da sociedade, maior a força contrária de querer se livrar dela.

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Ruins of Drop City, Trinidad, Colorado, August 1995.

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Berlim | Teufelsberg, a Montanha do Diabo

Em Berlim, visitar lugares abandonados já virou atração turística, quase mainstream. Podem não aparecer nos guias de viagem mais comuns – e, se você der sorte, nem na sua timeline do instagram – mas com alguns minutos de busca no google ou conversando com a recepção do seu hostel você consegue descobrir lugares que fogem do lugar comum. Digo quase mainstream pois existem tours específicas para visitar os lugares escondidos, alguns blogs só sobre o assunto e claro, já tem gente ganhando bastante dinheiro com o ‘hype’ da Berlim abandonada. Mas isso já é assunto para um outro post.

Um amigo que tinha visitado a cidade no verão já havia me falado de Teufelsberg. Mas o natal, o frio, a ressaca diária (ahhh, a cerveja alemã <3) e um pouco de medo de caminhar no meio da floresta sozinha fizeram eu desistir. Quase no fim da minha viagem, conheci um canadense que também estava indo para lá e resolvi fazer algo que não fosse entrar em lojas de antiguidades procurando meu lustre dar uma chance pro passeio.

Teufelsberg ( teufel = diabo, berg = montanha), a Montanha do Diabo, é uma das mais altas da cidade. Ela fica em Grunewald, uma floresta no extremo oeste da cidade. Como muitas outras coisas em Berlim, ela não é uma montanha original e passou a existir apenas após a 2a Guerra Mundial, no começo da Guerra Fria. Continue lendo