A música eletrônica na Alemanha Oriental

A Red Bull Music Academy montou seu mini studio na Wrangelstraße, em Berlim, e fica lá até o dia 29 de setembro. Dá pra ouvir a transmissão e algumas entrevistas com os artistas — intensivo de alemão de graça! — aqui.

Aproveitando a deixa, eles pediram ao ex editor da Groove Magazine, Florian Sievers, que reencontrasse os artistas pioneiros da música eletrônica na DDR (alemanha oriental) para contar como era a produzir naquela época.

Julius Krebs e a Fernsehturm

Julius Krebs e a Fernsehturm

Como a maioria das pessoas ouvia, mesmo que ilegalmente, as rádios do lado ocidental, a música eletrônica não era totalmente desconhecida. O grupo Tangerine Dream (da alemanha ocidental) foi pioneiro e inspiração para a maioria dos novos produtores, que buscavam na tal meditação eletrônica uma forma de fugir da vida real. Apesar do grupo ter fãs do outro lado do muro, qualquer um que confessasse querer fazer um som parecido era chamado de louco. E talvez esse tenha sido o impulso perfeito para algo novo surgir — fazer aquilo todos duvidavam ser possível.

Os motivos eram bem simples. Só existia uma gravadora (controlada pelo governo e curiosamente chamada AMIGA) e a fama de produzir instrumentos (ou qualquer outro produto, na verdade) de baixa qualidade. Importar um sintetizador pelo mercado negro chegava a custar 40 mil marcos e podia demorar meses. Os mais sortudos guardavam todo o dinheiro que tinham para comprar os equipamentos, mas a maioria acabava tentando produzir versões caseiras com peças de computadores e outros instrumentos. O que nem sempre dava certo, como conta Mark Reeder da lendária Factory Records, o primeiro e único produtor inglês a trabalhar na DDR.

it was a very rare opportunity for me to be allowed into this fascinating Frankenstein’s monster of a recording studio. More or less every piece of equipment in the place was self-made or had been cobbled together from bits and pieces. There were other difficulties to test your nerves too, such as regular power surges or drop-outs. These caused the multitrack tape recorder to instantly jump-switch all channels on to record mode, erasing any previously recorded tracks.

Tiracon 6V, um dos primeiros sintetizadores produzidos na DDR.

Tiracon 6V, um dos primeiros sintetizadores produzidos na DDR.

Pode ser difícil de imaginar, mas naquela época a igreja era o ambiente mais liberal em que um artista podia estar. Era na igreja que os punks e os jovens de oposição ao regime se encontravam, pelo simples fato de ser o único lugar na cidade onde eles não corriam o risco de serem espionados pela Stasi.

We always performed at church congregations at the weekend where we played meditative electronic music, and we also accompanied the service on Sunday mornings. So we had to play very quietly, without a drummer. Well, we didn’t want little old grannies keeling over. For that reason, and also because at some point we lacked the energy to bother about lyrics, as of 1982 we started playing purely instrumental electronic music. – Jan Bilk

Segundo Florian, a maioria desses artistas abandonou a música e vive no interior da Alemanha, bem longe dos sintetizadores D.I.Y. Infelizmente poucos tiveram força de vontade o suficiente para sobreviver à reunificação. Muito se fala sobre a energia e o espírito livre que tomou conta dos jovens após a queda do muro, mas para os artistas que estavam ganhando visibilidade na Deutsche Demokratische Republik não foi tão fácil assim. Nessa época, tudo que vinha do lado oriental já era velho e motivo de piada.

German Reunification changed everything: anything that was of value here or once expensive became worthless, and our biographies were dismissed as slightly inferior. At the same time, everyone was so overjoyed about the abundance of electronic music that I felt it was no longer essential for me to continue.

Deixa de preguiça e vai ler a matéria inteira!

—————–

Florian Sievers lançou em 2010 a coletânea Mandarinen Träume:Electronic Escapes from the Deutsche Demokraktische Republik 1981-1989, uma compilação dos hits que marcaram essa época.

Anúncios

  1. Camila Faria

    Impressionante a força de vontade desses artistas, superando todas as dificuldades, construindo equipamentos improvisados… sensacional! E fiquei boba ao ler sobre o destino dos caras, pós reunificação. A história da Alemanha é mesmo fascinante!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s