Berlim | Teufelsberg, a Montanha do Diabo

Em Berlim, visitar lugares abandonados já virou atração turística, quase mainstream. Podem não aparecer nos guias de viagem mais comuns – e, se você der sorte, nem na sua timeline do instagram – mas com alguns minutos de busca no google ou conversando com a recepção do seu hostel você consegue descobrir lugares que fogem do lugar comum. Digo quase mainstream pois existem tours específicas para visitar os lugares escondidos, alguns blogs só sobre o assunto e claro, já tem gente ganhando bastante dinheiro com o ‘hype’ da Berlim abandonada. Mas isso já é assunto para um outro post.

Um amigo que tinha visitado a cidade no verão já havia me falado de Teufelsberg. Mas o natal, o frio, a ressaca diária (ahhh, a cerveja alemã <3) e um pouco de medo de caminhar no meio da floresta sozinha fizeram eu desistir. Quase no fim da minha viagem, conheci um canadense que também estava indo para lá e resolvi fazer algo que não fosse entrar em lojas de antiguidades procurando meu lustre dar uma chance pro passeio.

Teufelsberg ( teufel = diabo, berg = montanha), a Montanha do Diabo, é uma das mais altas da cidade. Ela fica em Grunewald, uma floresta no extremo oeste da cidade. Como muitas outras coisas em Berlim, ela não é uma montanha original e passou a existir apenas após a 2a Guerra Mundial, no começo da Guerra Fria.

Vamos lá, um resumo da história para vocês. No final da ditadura nazi, o governo começou a construir uma escola técnica militar nazista no lugar onde agora é a montanha, colada na floresta. Cabô nazismo, cabô obra. Mas Albert Speer, o arquiteto bff de Hitler, era bem bom no que fazia. Tentaram (neste caso, os EUA) demolir a construção diversas vezes mas não conseguiram. Por fim, decidiram que ali era um bom lugar para ser transformado no lixão dos escombros da 2a Guerra. Todo o entulho de demolições e construções – e sabe-se lá o que mais – do pós guerra foram levados para lá. Quando a pilha ficou alta o suficiente para parecer uma montanha, resolveram dar um trato e fazer uma pequena plantação de um milhão de árvores na montanha de lixo. O lugar ficou realista e agradável o suficiente, e lá no topo foi construída uma torre de escuta e de espionagem. Vamos combinar que ela não era muito escondida, mas com certeza estava em um lugar privilegiado pra conseguir interceptar as ondas de rádio Stasi e ainda ter uma bela vista da cidade.

No fim da 2a Guerra o terreno foi totalmente abandonado. Até David Lynch já tentou arrematar o lugar e transforma-lo em uma Universidade de Meditação Transcendental (o que não deu muito certo, como você pode ver aqui). Hoje o terreno está nas mãos de um arquiteto chamado Harmut Gruhl que está “emprestando o lugar” para uma empresa turistica em troca de alguns favores. Ou seja, o lugar não está mais totalmente abandonado, mas ainda vale a visita.

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Se você não é uma pessoa tão perdida e azarada como eu, chegar lá não vai ser tão difícil. Mas mesmo assim, separe um dia inteiro para conhecer o lugar inteiro, ir e voltar. Se for no inverno, não se esqueça de sair pelo menos uma hora e meia antes de escurecer – não tem iluminação nem na estrada, nem na floresta. E mais importante: não confie no GPS do seu celular. Lição essa que eu já deveria ter aprendido andando de carro pelo centro de São Paulo.

Para chegar lá você tem dois caminhos. Pegar o S1 para Grunewald e caminhar pela floresta até encontrar a montanha (se você não for míope, não vai ser tão difícil), ou pegar o S9 ou o S75 para Heerstraße e ir caminhando/pedalando/patinando uns 2 km pela Teufelsseechaussee. A segunda opção é a mais fácil, se você estiver de bicicleta vai ficar mais fácil ainda. Esse mapa feito toscamente no paint que eu achei na internê pode te ajudar um pouco:

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No fim do segundo estacionamento você vai enxergar uma trilha que leva para o topo da montanha. E mais um monte de gente tão perdida quanto você. O caminho é bem fácil de achar .

Alguns blogs que falam como chegar até lá estão desatualizados e não contam pra você que todos os buracos que existiam na grade em volta da torre estão fechados com arame farpado. Eu, perdida que sou, fiz o caminho todo errado. Obviamente choveu enquanto eu tava na floresta. Saí na parte de trás da torre ainda com a esperança de entrar por algum buraco da cerca. Rodei o terreno inteiro agarrada na grade (enquanto o colega canadense ria da minha cara) pra não escorregar na lama e morrer cair até chegar na entrada principal e… o portão estava trancado com um cadeado. Estava ensaiando meu alongamento pra escalar o portão, quando um guia turístico chegou e acabou com o nosso espírito de aventura: 9 euros para entrar. Vale lembrar que estamos no lado ocidental de Berlim, o capitalismo já deve ter chegado aqui.

O guia contou que um grupo de fanfarrões invadiu o lugar no ano passado para fazer uma festa. Eles botaram fogo em alguns pontos da cúpula, quase morreram e fuderam com o nosso rolê. Agora ele mora lá (e o dono do terreno sabe) e a equipe dele está ajudando a limpar o lugar e evitar que pessoas morram lá dentro ou destruam ainda mais a torre. Um carro da polícia passa lá quase diariamente pra ver se está tudo certo. Enfim, pague os 9 euros (sim, 9 cervejas perdidas) e seja feliz.

O lugar é realmente incrível. Poucas paredes em volta, grafitti por toda a parte e uma vista maravilhosa. No verão deve ser ainda mais bonito e já fiquei sabendo que rolam várias festas por lá.

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Uma das coisas mais legais pra se fazer lá dentro – se você for tão idiota quanto eu – é subir até a cúpula e ficar fazendo barulhos bizarros para escutar o seu eco. Levar uma lanterna também é uma boa idéia, nos últimos andares não entra iluminação nenhuma.

Espero voltar no verão ou pelo menos antes de derrubarem tudo para construir um hotel de luxo.

As fotos são todas minhas. Roubem com carinho e créditos 🙂

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